segunda-feira, junho 09, 2008

Amoral


Me pergunto qual será o parâmetro da "moral" que rege os limites entre o aceitável e o inaceitável em cada país.

Corrupção "pornográfica", pode.

Assassinato "pornográfico", incluindo filhos, pais, avós, pode.

Miséria, pode.

Falta dos níveis mínimos de educação, pode.

Falta dos níveis mínimos de respeito, pode.

Preconceito, escancarado ou velado, pode.

Desigualdade social "pornográfica", pode.

Toda a sorte de meios ilícitos de "chegar lá", pode.

Ataques incessantes ao meio ambiente, pode.

Infelicidade acomodada, pode.

Atrocidades "pornográficas", pode.

Enfim, o que não falta é criatividade para escolher uma forma de atentar contra o próximo (e contra si próprio) ou se colocar acima dele - e, à sua custa - de alguma forma.

Enquanto isso, são eleitos e fomentados determinados tabus, quase como forma de desviar a atenção do que importa realmente. E observo que os tabus sempre inibem a liberdade e o auto-conhecimento de alguma forma. Então, se os falso moralistas aplicam o que pregam, estão fazendo nada mais do que atentar contra as suas próprias possibilidades de plenitude e, em muitos casos, de felicidade.

Um dos tabus de estimação, é o sexo. Por sexo, entende-se neste caso, tudo o que possa trazer conotação sexual.

Incitou a imaginação? Inaceitável.

Liberou a libido? Inaceitável.

Acendeu a ousadia? Inaceitável.

Tirou do convencional? Super, ultra, mega, max inaceitável.

Alimentou a individualidade liberta? Impensável.

Neste rastro de "moralidade" sobra para quem ficar na reta. A bola da vez, ao menos na mídia brasileira, é a campanha para o Dia dos Namorados da C&A criada pela agência DM9DDB, cujo tema é "Papai e mamãe, não!".

Na versão para televisão, assistia-se (até o último dia 6, quando foi retirada do ar) a versões diferentes para o comercial. Uma psicóloga, uma astróloga, uma enfermeira, citavam, com referências às suas respectivas profissões, formas de melhorar o Dia dos Namorados, no aspecto sexual. Tudo com muito bom-humor, criatividade, uma pitada de malícia e sim, bom-gosto. Não vi na criação, absolutamente nada de grosseiro, ofensivo ou imoral e, no entando, foi considerada pelo órgão regulamentador como contendo forte mensagem erótica. Seja lá o que for que isto signifique, foi o suficiente para que se "recomendasse" sua suspensão definitiva.

Erotismo? Impensável.

É favor não confundir erotismo com pornografia, apelação, mau-gosto, degradação e demais ocorrências inaceitáveis que podem misturar-se ao gênero.

É preocupante também, esta silenciosa manifestação da censura que vem, aos poucos, se reinstalando no Brasil e deixa a pensar qual será o desfecho de tão lamentável tendência no curso deste, pasme, Terceiro Milênio.
Faz brotar na garganta um indignado "vão se foder". Com o perdão do trocadilho.


(Colaboração: Vanderlei Martinelli)
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Assista (enquanto o YouTube permitir):

Psicóloga

5 comentários:

Vanderlei Martinelli disse...

Uia... Eu colaborei? rsrs

É interessante que as pessoas que "zelam" pela "moral e bons costumes" se achem no direito de definir o que é "moral" e o que são "bons costumes". Enquanto fecham os olhos para a verdadeira imoralidade e o mau costume de quererem coibir e proibir tudo que não se ajusta a limitada visão que têm.

Censura é imoral. E também um mau costume.

Lembrei de uma música da Legião: "Abra os olhos e o coração, porque o terror continua: só mudou de cheiro e de uniforme."

Viva a liberdade! Vivamos...

Vanderlei Martinelli disse...

Ah... Não comentei por aqui... Mas essa foto está linda. Uma obra de arte. Precisa colocar seus créditos nela.

Beijo, meu amor.

adelaide amorim disse...

Existe entre nós um lamentável costume de aproveitar a dobradinha educação deficitária+repressão cultural pra ferrar as pessoas que convém utilizando álibis moralizantes. Exemplo disso é a questão em pauta. Fica complicado, porque a tal dobradinha leva grande parte do povo a acreditar que as medidas punitivas se justificam, mesmo que "politicamente incorretas", essa expressão que tem uma conotação hipócrita quase cínica.
Enfim, a liberdade individual continua um mito.
Beijo pra você, Bia.

Lu Dias disse...

Realmente... é duro viver num país de podres impensáveis...
Que mais e mais pessoas possam pensar diferente, evoluir e entender a vida como arte e amor.
Beijos!

robson disse...

tudo que difere da mentira reaviva os pesadelos do prisioneiros dela de se verem fadados a lidar com a verdade. beijo")