quinta-feira, novembro 08, 2007

Se dê motivo


Expressar é a essência maior e primeira de ser humano.
Para cada pessoa isto pode vir de forma diferente, é certo. Ou nem vir. Mas ela ainda estará lá. A necessidade absoluta de expor o íntimo de alguma forma.
Veja que para expor, não é preciso escancarar. Expor pode conter imensa sutileza e abstração. Escancarar, não – que escancarar, em certos casos, é apenas deselegância em forma de expressão. A carência também faz escancarar, mas toda carência será perdoada, visto que é expressão frustrada, preterida.
Uma auto-análise franca pode mostrar que tudo o que é dito ou feito, vem vestido unicamente numa tentativa de colocar para fora um aspecto, uma nuance, um momento que insistia para ser descoberto. E, ao descobrir, dá-se a ele uma face nova, também diante daquele que o expôs.
A expressão do que existe de melhor, pior, maior e menor dentro de um ser é o que faz com que se chegue cada vez mais perto de enxergar e experimentar quem se é.
Conversas, composições, criações, registros, interpretações. Tudo é veículo para seguir o caminho que, saindo de dentro, leva para fora e, paradoxalmente, traz de volta para si.
Cantar uma canção ou criar um blog. Montar um painel de fotografias ou entrar para uma banda. Publicar um livro ou ligar para um amigo. São tantas e tão variadas as formas buscadas e encontradas pelas pessoas para serem vistas, ouvidas, percebidas, sentidas. A internet, crucificada e adorada, já constitui sozinha um veículo inestimável de conectar expressões que, de outra forma, talvez jamais se alcançassem.
Ser humano, é função que gira, a todo tempo, em torno de comunicar encantos e desencantos dos recantos interiores.
Comunicar é impreciso como viver. E tão necessário quanto.
Respiração através da qual entra e sai o alimento para sustentar existências que com este, talvez nunca precisem de outro significado. Sozinho, este ainda teria sido um significado invejável que um sem número de pseudo-comunicólogos, profissionais ou amadores, não sonha em atingir.
Na lapidação da expressão como prática, afloram a ânsia, a curiosidade e o gosto pelo saber. Se a expressão ganha espaço, aumenta também a procura por novas descobertas e cria-se um círculo virtuoso de ganhos inestimáveis para a essência que busca existir verdadeiramente.
Comunica-se para se sentir vivo, inteiro, necessário, produtivo, realizado, integrado, visível. A comunicação de um para consigo, de um para outro e de um para todos, valida a sua passagem por este mundo, alicerça o vôo de buscar mais e além.
A satisfação em trazer à luz um momento qualquer que vinha existindo apenas na privacidade inalcançável de uma alma, impulsiona intenções e arrebata o indivíduo para um nível de existir no qual ele enxerga a sonhada perspectiva de encontrar-se, afinal. De ser, de assenhorar-se do seu território, de farejar o motivo pelo qual está aqui.

_____

segunda-feira, novembro 05, 2007

Aceno do lado de fora



Essa alma fica aqui dentro
querendo se desmanchar em pétalas
aqui fora.

Há mudas que brotam

ou secam falando demais

Vidas me tocam
mas a indiferença me persegue.
Mão dada com meu Deus
Olhos nos olhos dos meus demônios

Ouvir. Respirar. Desapegar.
Mais ramos verdejando a janela de folhas abertas.


___



Refugee



Um refúgio
da loucura do mundo

Na minha loucura
me refugio.

A loucura que é minha
consiste em viver num faz-de-conta
Onde nada se pôde ganhar ou perder.
Tudo sempre esteve no seu lugar.

E vão-se as sementes evoluindo de si mesmas
Vai o vento navegando em suas próprias curvas
Vão os mortais reconhecendo suas faces e circuitos.
Nada além do que já estava desenhado nas nuvens.

Nas escolhas desvendam-se os contornos, inabaláveis.
___

segunda-feira, outubro 29, 2007

Resiliência


Ser fiel a si mesmo é um paradoxo.
Primeiro, porque as verdades são mutáveis e transferíveis, e estão totalmente condicionadas às circunstâncias.
Que tipo de pessoa não muda de idéia? "Si mesmo", portanto, está sempre mudando e ser fiel cabe na constância.
Vale mais ser autêntico. E livre. Até para manter as antigas idéias, se for o caso.

Segundo, porque para chegar a caminhos que nos levam a nós mesmos, temos frequentemente que aturar o insuportável. Passar provas de fogo diárias e sem sentido.
Temos que conviver com pessoas que não nos interessam, aceitar concessões que nos diminuem perante ao nosso próprio eu, nos curvar à vontade de gente despreparada, nos submeter aos impulsos de mentes mal intencionadas. Tudo isso para passar de um momento a outro. Do agora para o depois.

Por que? Porque se o barco sempre for abandonado quando as condições são adversas, nos veremos voltando sempre ao mesmo ponto de fugir quando alguma coisa nos desagrada. E onde fica o caminho até o fundo de si mesmo nisso, se estaremos de novo e de novo parando no mesmo lugar e voltando ao início?

Há pessoas que se vangloriam de ser "francas".
"Falo mesmo." - dizem.
E enquanto falam, não ouvem. Não refletem, não vêem o outro, não enxergam a diferença, não admitem vida inteligente longe do seu umbigo. Doa a quem doer, é o seu lema. Desde que não doa nelas. Bem...aí então, não é franqueza, é medo. Atacam para não ouvir verdades. Para não ouvir coisa alguma, aliás.
Há pessoas que se vangloriam de ser "equilibradas".
Não optam pelo confronto direto nem para salvar a vida. E nisso, ou dissimulam coisas que não pensam ou omitem a totalidade do que lhes vai no pensamento para poder sempre recorrer à defesa de dizer que "não foi o que disse, quem pensou isto foi você" . Tudo para não sair do conforto do alto do muro.

A vida seria tão mais prazerosa se os super francos nos poupassem ocasionalmente dos seus chiliques e se os super equilibrados nos brindassem vez ou outra com a sua opinião.
É o paradoxo e o preço de ser "fiel a si mesmo".
São tantas as oportunidades perdidas e muitas as situações onde esta fidelidade toda é uma excelente desculpa para não abandonar o casulo e voar para maiores horizontes.
Voar dá trabalho e só decola quem souber que terá de fazer por merecer.


__

quinta-feira, outubro 25, 2007

Derramada



Caem as águas enfim
ora mansas, ora velozes

O vento, na minha pele
inventa tons de mim maior

Felizes verdejam as folhas
que ensaiam bailados improvisados

Pés, sem sentido
saltam poças-espelho do seu riso

Ares, novos e belos
desenham calmaria nas respirações

Meninas de olhar o céu
rezam esperanças de continuação

No estio da seca amarga
chove alívio no estender das mãos.


Água, benta e muita
fruto das forças do ventre luz.
_

terça-feira, outubro 23, 2007

Admita uma coisa que te meta medo de verdade




EU SOU REBELDE.


Odeio secretamente (porque odiar é politicamente incorreto e faz mal pra alma) gente que, de qualquer maneira que seja, quer punir, excluir, cercear, inibir, coagir, comprometer ou prejudicar alguém por não ser da forma que julga mais adequada para a sua visão turva pela lama do chão onde se rasteja.
___

quinta-feira, outubro 18, 2007

Infernal não é o capeta

Foram dar uma volta, os sonhos.

De cabeça exaurida,
a emoção comprimiu.
Feia, enrugada.

\
- Par de asas para viagem, por favor?
Para todos os tipos de viagens.
Astrais, físicas, quânticas.
Le-vi-ta-ção.

\
Ação é a coragem que parou de pensar.
Inércia é a ação que esqueceu de existir.
Ira é o despertador da coragem.
O cansaço é colchão para cochilar, enquanto isso.
\
Semente seca pulou da terra e suspirou o céu.
Os sonhos, a passeio
acenaram do lado de lá
- Já vou! Deja vú
\
Aguardados a qualquer momento no pavilhão principal.
Deixe seu recado, após o sinal de adeus.

- Tu, tu, tuuuuuuu...

segunda-feira, outubro 15, 2007

Podes Crer

É fato.
Daqui a um ano, 10 meses, você vai olhar para trás e enxergar, nítido como um sonho bom, pessoas que se tornaram fantasmas na sua vida. Fantasmas camaradas. Será que seriam, então, anjos?
Vai enxergar eras idas, cores, sons, sensações, realidades. Vai reviver uma vida que não é a sua vida de agora.
Serão rostos, vozes, histórias que se impregnaram na sua história sem pedir licença e saíram com a mesma falta de cerimônia.
Lembranças de elos, de companhias na batalha, de parceiros de canção. Finais trágicos, finais insossos, finais inevitáveis, finais preveníveis. Finais.
Eis que ficaram numa época onde tudo era outro. Ficaram na sua própria época, sem deixar de ecoar. Não são assim os fantasmas?
Penam, que pena. Que assombro que assombrem mesmo idos.
Mas é natural. Você também há de ser fantasma na vida de alguém. Ainda que já tenha ido muito, muito além. Que tenha sido quase sobre-humano. Um anjo, então?
Criatura de outra esfera, de pedra, de algodão. Doce penar de almas de outrora.
Pena também a sua, mas crê nos anjos que ainda virão.

"É tão forte quanto o vento quando sopra
tronco forte que não quebra, não entorta
Podes crer, podes crer
Eu tô falando de amizade"
(Podes Crer, Cidade Negra)

segunda-feira, outubro 08, 2007

To Remember

A gente se esquece tão fácil de quem é.
A gente se esquece fácil que, para lembrar de quem é, ajuda muito olhar para o que foi.
Lembrando dos caminhos por onde passou, dos desfiladeiros, dos penhascos, das turbulências, das gargalhadas, dos êxtases, fica um tanto mais simples ir se desprendendo de emoções, de formas de reagir viciadas que já não servem mais e têm a única função de enrugar o espírito e a face.
Não é preciso a gente se prender ao passado, mas , reconhecê-lo e relembrá-lo nos fortalece para descobrirmos todos os dias para onde queremos ir.
Ter presentes os lugares de onde já saímos, nos renova e nos faz respirar o ar das trilhas novas pelas quais queremos evoluir.

Crescer é preciso.

terça-feira, setembro 25, 2007

Nenhuma Unanimidade



Dizer que não sou nenhuma unanimidade é exagero. "Muito longe de agradar" corresponde mais ao meu perfil.
Este e milhares de outros "pensamentos que penso quando não estou pensando" cruzavam minha mente durante dias mesclados de tumulto e ira intensos, e ternura desmedida.
Dias repletos de pessoas equivocadas e maldosas , e simultâneamente, recheados de mais amor e carinho do que qualquer pessoa possa merecer. E não é preciso muitas pessoas descuidadas pra fazer estragos, nem tampouco muitos olhos atentos e plenos de calor para fazer crescer uma alma. Felizmente amor e carinho não têm nada a ver com merecimento, que é relativo demais.
E amor é engraçado. Ao mesmo tempo em que a gente quase exige que as pessoas nos amem, sente-se desmerecedor. Acha que erra demais para que este amor - o único, o incondicional - possa de verdade vir morar na nossa casa. A gente mal enxerga o braço sempre estendido na nossa direção, o ouvido sempre pronto para as nossas dores. A vontade sincera de saber como foi o dia, se tudo está mesmo correndo bem.
O amor, aquele incondicional, não se encontra no atacado...é uma pena. Adoraria quilos e quilos de amor, vindo de todas as direções. De colegas de trabalho, de amigos dos amigos, de vizinhos. Mas o amor é um grau de intimidade superior. É preciso ser muito íntimo para amar.
Para detestar, por outro lado, não precisa muito. Vem naturalmente, sem esforço, e qualquer coisa pode ser um bom motivo. Até os grandes motivos.
Estar "muito longe de agradar" tem suas vantagens. Cultiva-se ainda mais e melhor as pérolas e dedica-se muito pouco aos relacionamentos de aparência. Aqueles que pegam bem, mas não significam nada para ninguém.
Até hoje não descobri o que torna uma pessoa , unanimidade (ou o mais próximo que se possa chegar disso). Pode ser uma inata habilidade de não desagradar a ninguém. É lindo de ver, mas não é para todos. Viagem, cada um aqui tem a sua. E aquele estereotipozinho carregado de equívocos, chamado felicidade, não é unânime, nem histérico, nem efêmero. Não busca como morada pessoas perfeitas. Não elege os "melhores". É tão somente um estado de estar na vida. Uma percepção à disposição de quem enxergar um milésimo do que precisa ser feito para tirar todo o inútil que habita concreto na nossa mente, e acender a visão para esta busca de si próprio que ofega escondida dentro do peito.
Para ser eu, abri mão de ser a unanimidade que nunca pude. Me alegro por descobrir quem eu sou e saber que esta descoberta traz milhares de custos. Os pagarei todos.
Da mesma forma que o inútil faz ninhos sobre as nossas cabeças, a Coragem também pode fazer. É por ela que eu chamo, hoje e sempre.

terça-feira, setembro 18, 2007

Todos os Elementos





Tanto ainda por ver!
Infindáveis paisagens do mundo.
Infindáveis cenários para mim.
Infindáveis eus aprendendo. Perdendo. Crescendo. Ganhando.
Infinitamente...
Olhos bem abertos. E erro, muito.
E quero, tudo.
Vejo as pessoas, vejo as estações, sinto as situações.
Tão longe de ser unanimidade em qualquer lugar.
Às vezes amada, às vezes não.
Muitas vezes sem fazer sentido, homeopaticamente enxergando
que vale mais, muito mais
A forma de caminhar.


segunda-feira, setembro 03, 2007

Crônica Para Mim

Eu nasci contrariando as expectativas de alguns. Teria sido mais fácil, para estes, eu ter esperado para encarnar em outras condições.
Acontece que, quando nasce alguém, esta vida chega fresca, nova, toda por ser percorrida e descoberta. E aí, quem está por perto acaba renascendo junto. Quem fica longe não tem como saber do que é que esta vida é feita. Quais são as suas cores, sabores e dores. Quais são seus sonhos e desejos. O que lhe vai na alma e no coração. Quem fica longe não tem como perceber tudo o que a vida nova não diz e jamais irá dizer. Este é um privilégio dos que renasceram e cresceram junto.
Ocorre que uma pessoa é constituída de infinitas nuances que nem ela própria conhece e tudo sempre pode mudar. Os sábios - ainda que ignorantes de sua sabedoria - deixam livre o espaço para o intangível. Sabem que mais dia, menos dia, um anjo pode soprar por sobre seus ombros e trazer o imprevisível. Nesta hora tudo se move e cada um que cuide de limpar a sua bagunça. Porque é claro que a mudança bagunça tudo. O imprevisível remove portas e janelas a tapa, e deixa muito rastro para limpar.
Entre uma ventania e outra, eis que me surge na vida, um pai que eu nunca conheci. Ou melhor, um pai que nunca me conheceu.
Da forma que os eventos do meu nascimento se deram, eu jamais procurei esta pessoa para que assumisse o seu papel na minha vida, ainda que tivesse plenas condições para isso, da mesma forma que ele, para me encontrar. Não acredito em amor que se pede. Que dizer então, de ter que pedir que o co-autor da sua vida te ame. Para mim, não caberia jamais.
Existem, é claro, os detalhes técnicos da concepção, como por exemplo, quem vai pagar as contas. Neste quesito, felizmente a necessidade nunca chegou a obrigar que ele precisasse ser procurado com exigências de que pagasse o que lhe cabia. Para mim, esta possível renda a mais nunca entrou na conta do porque seria importante ter pai. Outro sobrenome na minha documentação também nunca fez a menor falta. Eu adoro o meu. Convênios diversos para maior conforto e segurança? Se precisei, foi tão ínfimo que sequer me lembro.
O que esta vida fresca poderia ter feito bom uso quando chegou, seria uma dose extra de família. Gente para nos amar e proteger, não é demais jamais. Gente para nos cuidar e nos dar a segurança, não do dinheiro e das documentações, mas sim de que se pode sair para o mundo com todo desprendimento e coragem porque se o mundo não nos merecer, o amor do ninho de onde saímos estará sempre ali para curar as feridas. Isto, felizmente, eu tive intensamente. Mas toda vida é gerada de uma mulher e de um homem.
Estabeleceu-se que seria desta forma por alguma razão e cada qual, homem e mulher, tem suas próprias particularidades insubstituíveis a exercer quando gera um outro ser. Um não poderá cumprir o papel do outro, simplesmente porque são diferentes e têm seu próprio papel a cumprir. E a vida que chega precisa de ambos para voar com confiança - para dentro de si mesma e para os confins da terra.
Com todos os pensamentos que me ocorreram desde que este pai surgiu, permanece sem resposta uma pergunta bastante importante: há prazo de validade para pai? É possível entrar, como pai, na vida de uma pessoa quase três décadas depois do seu nascimento? Qual outro tipo de relacionamento seria possível como alternativa?
Às vezes, estas perguntas me parecem essenciais. Noutras, me parecem o mais insignificante de tudo.
Neste ponto foi que me chegou a noção de que tudo sempre pode mudar. O coração humano tem limites incrivelmente elásticos para receber a mudança, o intangível.
É bem menos importante saber se a validade já expirou, do que saber quais foram as reais motivações e intenções para que este pai que jamais foi obrigado a nada, decidisse, tanto tempo depois, se apresentar.
Uma pessoa que teve pai, ainda que não tenha sido pai de um de seus filhos, talvez jamais chegue a enxergar a extensão da importância deste amor. E a extensão dos danos da falta dele.
É um terreno tão frágil, que se deveria ter licença judicial para pisar. A falta de cuidado ao fazê-lo, deveria ser crime inafiançável previsto na lei.
Nesta hora, palavras como "obrigação" e "responsabilidade", ficam pequenas e vazias diante do amor que se abriu mão de construir.


quarta-feira, agosto 29, 2007

Confesso que vivi

Quanto mais a vida acontece, mais vou percebendo algumas verdades, universais no meu mundo e sólidas para a minha alma.
Um sem número de eventos da vida seria perdido ou desperdiçado em grande parte se acontecesse em outra época, de outra forma, em meio a outras companhias, em outro momento pessoal. Tudo sucede na nossa história onde, como, quando e com quem deveria. Duvidar disso é jogar fora tudo de importante que estiver brilhando no horizonte enquanto as lamúrias pelo que ainda não veio jorram por nossa boca.
Nada do que a gente sonha ou espera, que vem demorando pra existir em nossa vida vai chegar a acontecer se não cairmos na nossa real e nos direcionarmos e organizarmos para isso. Quem tem medo de comprar as brigas, não vai desfrutar os acertos.
A gente tem uma facilidade incrível para se acostumar. É necessária a vigília constante para que, por excesso de costume, não acabemos sendo quem não somos e vivendo a vida que não escolhemos. E o limite entre buscar o que queremos ou ficar no que circunstancialmente experimentamos é finíssimo. Um espírito atento é nosso melhor aliado e uma auto-análise consciente faz milagres.
Reservar uma porcentagem considerável do dia para se fazer apenas coisas nas quais se tenha prazer - um prazer espontâneo e sem explicação - TODO santo dia, não garante plenitude a ninguém. Mas que a deixa espetacularmente mais perto, isto não se pode negar. Obrigação em excesso aprisiona o entusiasmo por si mesmo e por todas as possibilidades ainda a encontrar. Nossos sonhos precisam de tempo hábil para respirar e o ar não passa nas frestas reduzidas entre obrigações acumuladas.
Alguém, em algum lugar, já deve ter estudado a quantidade de riso diária que se precisa para não ficar com marcas de expressão nos pontos onde a carranca se forma quando não tomamos providências. Tem motivo à beça para não rir e o riso sem sentido e sem razão é, exatamente por isso, o que nos causa maior deleite.
Sempre, em qualquer momento que se esteja atravessando, em qualquer emprego, em qualquer grupo, vão haver pessoas - não raras, diga-se de passagem - que se sentirão perfeitamente qualificadas para, depois de no máximo duas olhadas rápidas, serem capazes de saber quem somos e nos classificar conforme bem entenderem. Talvez para elas, esta elaborada análise de cinco segundos sirva como parâmetro do que temos a oferecer ou de nossa personalidade. Isto não significa, absolutamente, que por um minuto sequer este rótulo venha nos dar um retrato de nós mesmos. Ninguém, por mais qualificado que se acredite, serve para nos dizer quem somos. Dar a alguém este poder é colocar-se à mercê de ser quem as pessoas prefeririam que a gente fosse. Só o auto-conhecimento praticado com dedicação e paciência pode nos dar esta resposta, homeopática e constantemente evolutiva.
Tudo o que se possa conquistar de mais precioso vai valer pouquíssimo se, neste caminho, não nos tivermos lembrado de cultivar autênticos parceiros de viagem, verdadeiros amores para dividir as vitórias conosco. Uma vitória solitária amarga os lábios e perde importância. Somos únicos e individuais, mas é no relacionamento que nos sentirmos alcançar os céus e todo esforço no sentido de nos aprimorarmos para isto será muito bem recompensado pela satisfação íntima e intransferível que nos acompanhará até pelos terremotos ocasionais.




segunda-feira, agosto 20, 2007

Safari


Tem uma selvagem escondida dentro de mim.

Ou talvez tenha uma pitada de civilizada na selvagem evidente que eu sou.

Fico em cima do muro, entre as duas, pensando que qualquer dia destes a selvagem faz uma loucura. Mas depois aquieto e a civilizada volta a levar sua vida dentro das paredes nas quais foi institucionalizada para viver.

A selvagem, de tempos em tempos exige espaço. Mas suas exigências acabam sempre durando apenas o suficiente para serem confundidas com a tpm ou com alguma outra fase de hormônios mais à flor da pele. Então, a civilizada quase se apodera de tudo e faz acreditar que hormônios enlouquecidos são a excessão.

Bicho que é, a selvagem espreita. Adestrada que se tornou, a civilizada argumenta.

Tem algo que admiram de longe, uma na outra. Mas sabem-se sol e lua, incompatíveis dividindo o céu e, entretanto, usando sempre o espaço que é de ambas.

Não alcançam o suficiente para enxergar o que faria uma na vida da outra. Sofrem fora do seu habitat, lhes falta o ar, lhes falta o chão. Não são aliadas. São oponentes involuntárias brigando por território. Choram quando expostas ao cruel talvez, e este é provavelmente o único ponto que jamais terão em comum.

A civilizada, na selva, sente medo e solidão. A selvagem, no concreto, sente asfixia e insatisfação.

Infinitos horizontes excludentes que se tocam brevemente no olhar e no acelerar da pulsação. E isto é tudo o que há entre elas, não concordarão jamais.

domingo, agosto 12, 2007

Amém

Se você precisar de descanso, não descanse muito mais do que o necessário porque o ferro parado enferruja e a água estagnada apodrece... E, além disso, talvez mais tarde, lhe falte tempo para terminar a tarefa da existência, e é trágico demais morrer inacabado.
Se você escorregar na estrada da existência e até mesmo cair de uma vez, não fique deitado no solo, clamando pelo destino, porque lhe falta ainda muito chão, muito caminho para andar.
Se você encontrar a semente ou muda do raro arbusto da felicidade, não vá plantá-la em seu quintal todo cercado, mas sim ao lado de um caminho frequentado para que muitos possam descansar à sua sombra e comer seus frutos, sem pagar.

* Encontrei estas linhas escritas em 17.3.2006, cuja razão de ter escrito , não me lembro e nem mesmo me lembro de haver escrito. Mas foi uma boa surpresa :)

domingo, julho 22, 2007

"Nenhum coração jamais sofreu indo em busca de seus sonhos"


Tão pouco acreditamos na inerente capacidade de sonhar. No dom de fazer acontecer o desejo, de escalar as mais altas montanhas, de transpor as mais descabidas dificuldades, de ser o que bem entendermos. De subir, subir, subir.
Poderemos.
Iremos.
Despontaremos.
Exército da bem-aventurada fé de que tudo fará. Fiéis do credo que não tem cor, idade, localidade, capital, pós-graduação, pedigree, manequim 38, clube da moda, limites.
Espécie rara que olha para o céu e não para o chão.
Gente que chora, ri, namora, ora, olha, diz, faz, é.
Invencíveis soldados combatendo por conquistar léguas a frente, vestidos nas glórias passadas e esperanças futuras. Lutando hoje, e sempre.
**

segunda-feira, julho 16, 2007

Reach


Tem dia que é pra ser seu.
Pode ser segunda feira, pode o dia estar frio e chuvoso, pode o seu relógio ter despertado uma hora mais cedo porque você precisava chegar bem antes no trabalho, pode a pessoa que marcou contigo ter furado e te deixado esperando, pode o carro ter morrido cinco vezes no semáforo movimentado te deixando debaixo de buzinadas raivosas, pode aquele pensamento cruel ter te cruzado a mente repeditamente: "e agora???".

Pode você ter se sentido preterido e injustiçado vez após vez pelas "leis" e pessoas vigentes, pode a falta de valorização e reconhecimento ter te esgotado até os ossos, pode a dúvida perpétua do "até quando?" ter te assombrado sem trégua. Podem todos aqueles seus defeitos de estimação que você já conhece tão bem não terem, até hoje, dado sinal de levantar acampamento te fazendo sentir inadequado e insuficiente. Pode a decepção, este fenômeno que criamos tão bem, ter assumido cadeira cativa a despeito das vezes que foi enxotada.

Pode até a força, o humor, a serenidade, a ousadia, a elegância, a afetuosidade, o impulso, a beleza, a evolução terem falhado e te faltado.

Mas o dia está lá. Com o seu nome estampado em letras maiúsculas fluorescentes. Embebido de uma vitória pessoal que ninguém mais enxerga, de um colo certeiríssimo para as suas necessidades mais primárias. Encantado com um aplauso inaudível aos ouvidos humanos e com um sinal de "SIGA EM FRENTE" pintado na nuvem mais alta.

Dias de luz, festas do sol mesmo sem sol. Disfarçados de cotidiano sem graça, vão parindo milagres silenciosos na sua vida. Água benta nas suas preces, oração de coração que deseja se fazer melhor.

"Aqueles dias em que você se ergue sobre as estrelas".

quarta-feira, julho 11, 2007

O Caos e a Lama


Enquanto isso, no planetinha Terra...

Universitários burgueses paupérrimos de espírito e caráter espancam e assaltam, em bando, mulheres (com cara de prostitutas) desacompanhadas e indefesas nas ruas de metrópoles-terras-de-ninguém. Os lamentáveis pais os defendem e os consideram injustiçados, afinal, a maria-niguém atacada nem morta está. Até viveu para contar a história.

O caos na essência do ser dito humano, reina. A lama e o sangue ficam nas mãos de tantos assassinos - de corpos ou de almas - que permanecerão impunes pelas facilidades nojentas que lhes confere sua suposta "classe".

E há também um outro tipo de assassinato que impera nesta nossa raça transviada. O assassinato dos valores. Morre a humildade, morre o respeito, morre a honra, morre a integridade. Mata-se a luta que deveria ser a busca primeira, mantida a qualquer custo: a preservação da espécie. E para preservar é tão fácil... Basta não se colocar acima do seu semelhante. Basta abrir a mente que nos alimenta de descobertas e crescimento infinitos. Basta harmonizar-se com este Deus tão alardeado e tão pouco conhecido. Basta não falsificar lideranças - políticas, ideológicas, espirituais - pelo mero senso de responsabilidade que sabe que nas lideranças haverão seguidores e que, a falta de valores e de visão pode ser mais danosa que explosões atômicas.

Segue o caos no planetinha onde supostos líderes afirmam barbaridades com a displicência de quem escolhe entre caju ou laranja para o suco matinal. Pretensos representantes da divindade suprema julgam-se , e ao seu credo, supremos. Não sabem onde termina o seu cargo de orientadores de um povo e onde começa a força maior que um dia foram escolhidos para representar. Impõem-se. Prostituem a Criação e o Criador. Proclamam impropérios dignos de novas guerras e esperam sair ilesos.

Pena, planetinha. Tão bonito e tão mal representado.
Algum dia aprenderemos.

terça-feira, julho 03, 2007

A verdade e a coragem

- Eu tenho a perpétua impressão desde que me lembro que, em algum momento, algo vai se descortinar diante dos meus olhos. Talvez nem seja nada disso, talvez eu vá caminhando um passinho atrás do outro mesmo sem maiores descortinamentos rs, mas tenho esta sensação de
que em algum momento eu vou descobrir algo maior. Ou talvez não seja sensação, só um desejo.


- Bem... às vezes o algo maior a ser descoberto, só é possível após pequenas e diversas outras descobertas

- Não sei mesmo, mas eu sonho em fazer algo além que não sei bem o que é... isto dificulta um pouco rs

- Isso me lembra de um trecho de uma carta de Florbela Espanca a Guido Battelli:
"Às vezes, parece que tenho qualquer missão a cumprir, qualquer coisa a fazer; mas não sei o que é, não compreendo, e esta inquietação mina-me, roi-me; esta interrogação, esta contínua busca, cada vez mais ansiosa, dentro de mim mesma, desvaira-me."

- Esta sou eu

- Somos nós...
Eu sei o quanto me cobro e o quanto às vezes me cobro além do que posso, então tenho tentado aprender a lidar com isso
(...)

- Parece que a gente nunca descansa de tentar não se medir pelas réguas alheias

- Talvez... mas a minha própria é muito mais exigente que a dos outros... só que, em boa parte das vezes, em coisas que pros outros não têm importância e pra mim têm, e vice-versa

- Aí a briga é dupla, porque a gente quer se encaixar em todas as réguas... Quase sempre, ao menos

- Tenho entendido que o que interessa é a minha...e mesmo assim, a minha pode estar equivocada em muitas coisas

- Sim...você entendeu tudinho
É bem por aí :)

- O que tenho feito é tentar lidar com essa ansiedade então... e ter uma noção maior que as coisas vão sim acontecer... mas que preciso estar preparado pra elas... e se preparar é agir em várias outras coisas também

- É um mosaico. Pedacinhos que aparentemente podem não ter nada a ver entre si, que vão construir o todo

- Talvez, caso seja mesmo assim, eu consiga ficar mais tranquilo... rs
Porque, realmente, esta noção que há algo maior, o tempo todo, que não sei o que é... está comigo desde sempre e a ansiedade por saber sempre foi grande.
E a auto-cobrança por ainda não ter descoberto também
(...)

- A gente se sabota muito

- "Às vezes sinto em mim uma elevação de alma, o vôo translúcido duma emoção em que pressinto um pouco do segredo da suprema e eterna beleza; esqueço a minha miserável condição humana, e sinto-me nobre e grande como um morto. É um instante... " (outro trecho da carta)

- Meu Deus...que coisa linda
Obrigada.

- Obrigada pelo quê, querida?

- Por me ajudar a me conectar.

domingo, julho 01, 2007

Quase John Lennon

Do ano se foi a primeira metade.
Seis meses a menos. Seis meses a mais. O copo (o ano) está meio cheio ou meio vazio?
A vida está aumentando ou diminuindo? A vida está sendo, se me perguntar.
Acontecendo, sempre. Tirando um pouco, somando um pouco. Doando muito. Pedindo muito de quem a está vivendo.
Ultimamente eu tenho pensado bastante no ciclo que cumprem as vidas. Todas as vidas. O ciclo com começo, meio e fim, os quais nunca sabemos quando serão. Nem os nossos - começos, meios e fins - nem os daqueles que fazem parte de nós.
Tenho pensado e quanto mais penso, mais absurdamente surreal tenho certeza de ser esta vida.
Será que, do pó viemos e ao pó retornaremos? Imagino...
Para a matéria fica fácil de visualizar um ciclo. Fica fácil seguir as fases que saem da infância, passam pela juventude e pela vida adulta, chegando até a velhice.
Difícil é visualizar o ciclo do conteúdo que sustentou os corpos. E o amor, para onde vai? Não surgiu do pó, assim não poderá virar pó. E as memórias? E os outros sentimentos todos que fizeram transbordar os corpos? Imagino...
Final de domingo também tem destas coisas. Auto-questionamentos sobre a existência. Como se já não bastasse a chegada da segunda-feira...humpf.
Um dos seriados que eu amo, discutiu certa vez num dos episódios, se a protagonista que estava para lançar um livro, seria uma otimista ou uma pessimista. A pergunta surgiu porque ela teria de dar o 'tom' à introdução do livro que reunia suas colunas preferidas (colunas sobre os seus relacionamentos) do jornal para o qual escrevia. A partir daí , desenrolaram-se os questionamentos do otimismo versus pessimismo na vida, até a conclusão final - lindinha, por sinal.
Com o ano meio cheio (ou meio vazio), vem também a percepção de que, a cada dia que passa, eu gosto menos das definições que rotulam pessoas e situações. É que me parece que sempre que surgem estas 'reflexões' do tempo que passa (as de ano-novo são as melhores) , automaticamente, de algum lugar vai surgir um selo, sinalizando para qual ponta pendeu o seu devaneio. Foi otimista? Foi pessimista? Será que bastaria dizer que foi humano?
Bastaria explicar todo o turbilhão indizível que nos habita dizendo que ele constitui e sempre constituirá a nossa mais pura humanidade? Imagino...
Não é porque se foi a primeira metade do ano. Não é privilégio de datas específicas imaginar sentidos maiores (ou menores) de tudo. É humano querer unir pontas de saídas e chegadas, de turnos e returnos, de inícios e finais, de começos e recomeços e imaginar. Tentar apenas chegar com o pensamento onde a vista jamais alcançará.