terça-feira, junho 05, 2007

Quando eu era criança


Tenho algumas lembranças deliciosamente boas e puras e lindas.
Uma das minhas lembranças mais queridas de criança é uma cena que jamais me saiu da cabeça. Eu, pronta para dormir e já deitada na cama, olhando o céu escuro - a janela sempre ficava aberta, até certa hora - e ouvindo a minha mãe me embalar com o seu canto. Sentada bem próxima de mim, acariciando suavemente meus cabelos e rosto, ia me contando histórias com melodia.
E lá ficava eu, perdida nos versos, na brisa da noite e na voz da minha mãe que é, até hoje, um calmante natural para mim.
Deviam haver várias músicas no repertório, mas por alguma razão, a que mais ficou na memória e no coração foi Madalena, do Ivan Lins. Era a que eu me lembro de sempre pedir que ela cantasse.
Até hoje esta lembrança causa risos em nós duas. Minha mãe, que mal se recorda desta cena, custa a entender porque cargas d'água escolheria justo esta música para embalar uma criança com tantas cantigas de ninar possíveis. Isto eu também não sei.
Mas hoje, acho que não poderia haver música melhor.

(...) Fique certa, quando o nosso amor desperta
logo o sol se desespera
e se esconde lá na serra

Madalena, o que é meu não se divide
nem tampouco se admite
quem do nosso amor duvide.

Até a lua, se arrisca num palpite
que o nosso amor existe
forte ou fraco, alegre ou triste


Não é uma beleza?

domingo, junho 03, 2007

Dia de Enamorar-se


Não é fácil enamorar-se.

Estar enamorado é coisa de gente que gosta de se debruçar de manhãzinha no parapeito, escancarar as janelas, fechar preguiçosamente os olhos e sorrir.

Sem motivo.

Só sorrir, porque o calor do sol da manhã causa no peito o bem sentir.

Lullaby to myself

E não somos todos partículas de energia cósmica?
Fragmentos de vida infindável que escorre das mãos do tempo indo e vindo de horizontes mutantes?
Olhos entregues luzindo amanhãs que desde hoje vivem?
Amor - incondicional como é todo amor - esperando ansiosos por uma oportunidade de nos doar e preencher?
Não somos todos a luz que esperamos enxergar em meio ao caos?

Deuses caídos e ascensionados no ritmo frenético da vida a qual chamamos realidade?

Somos nós.
A própria divindade que é, de tudo, capaz.
Que pode. Que alcança.
Aliança de nobre metal, real, dourada de sol e poder.


Eternidade.

domingo, maio 27, 2007

Shangrilá


Vez em sempre a gente se distrai. Perde contato com situações que sobrevivem à nossa displicência e espreitam num ou noutro canto. Não tem fuga, não tem deixar para depois o que pede atenção naquele agora.

Ninguém vai te perguntar se você queria pensar nisso ou naquilo, se era o melhor momento.

Serão indefinidamente trazidas ao seu conhecimento as pendências que você não cuidou de resolver consigo mesmo.

Aí então, você vai tentar. Uma, duas, dez vezes. Vai tentar da melhor forma que puder (ou às vezes, nem isso). Vai relutar em agir. Vai duvidar do que fazer. Vai perceber situações purgando sobre a superfície em chamas da sua carne.

E vai continuar sendo você mesmo e fazendo tudo (e só) o que pode fazer. Ocasionalmente, vai aprender uma ou outra boa lição, daquelas que ficam mesmo, pra sempre.

Se perceberá, direta ou indiretamente, dividindo experiências com gente que tenta avançar da mesma forma que você. Gente que quer mais da pessoa que sabe que pode ser. Gente que luta também batalhas diárias contra a incompreensão, o despreparo, as distrações, o egoísmo, a indiferença, o desconhecimento, as distâncias a percorrer no próprio íntimo.

Pensará no que já foi, antecipará o que será, celebrará o que é.

Escalará arranha-céus e repousará na rede à beira da lagoa. Cansará. Descansará até chegar o momento de vestir novamente a armadura e sair no galope de dúvidas confiantes reservado para o combate da vez.

Muito cedo vai notar que não se responde sem dor aos chamados sussurrados ou gritados aos seus ouvidos desatentos. Com o tempo vai notar também que, saber como responder aos chamados, é uma especialidade que sempre se busca e dificilmente se alcança.

E do seu jeito, mais uma vez se apresentará ao combate da forma melhor que souber. Não sem antes voltar aos questionamentos de sempre. As eternas procuras de um porquê e as reincidentes conclusões de que os porquês não lhe cabem.

O que lhe cabe, é mesmo partir. Sem mapa, sem escudeiro, sem privilégios.
Vestido apenas em entrega, a sua companhia é a coragem.

sexta-feira, maio 25, 2007

O chegar não é o fim, é apenas um descansar*


Compondo imortalidades.
Criando pedaços de gente, de luminosidade, de presentes quase invisíveis.
Construindo pontes de nos conduzir a quem queremos ser.
Planando caminhos de nos transportar a transbordantes paisagens desconexas e reais.
Sendo tudo para sermos únicos. Escolhendo batalhas, recusando propostas veladas de ser ridículos. Preferindo ser totais.
Abrindo braços, dores, entranhas e sorrisos para cada gota de existir que nos queira alcançar.
Dúvidas que cortam e doem, que não podem paralisar o desejo.
Nem sempre chegando a algum lugar visível.
Nem sempre sabendo o que oculta uma vontade.
Nem sempre compreendendo, decidindo, enxergando.
Emaranhando vidas e voando solo. Nos misturando e nos fragmentando para ser e ser até não mais poder.
Scaneando o azul e orando para sentí-lo morar dentro de nós.
Chão sagrado a conquistar.
Nem as providências práticas do dia-a-dia mecânico apagam as estrelas incontáveis que cada célula quer fazer brilhar.

*Título (e colaboração para inspiração do post) por Isti.
Outras colaborações para inspiração do post: por Edson Marques. Pelos comentários incandescentes ao post anterior. Pelas dúvidas incansáveis. Pelos momentos desta semana.

quinta-feira, maio 17, 2007

Se lhe fosse concedido um desejo

Uma pequena bússola
Para indicar que este caminho
leva mesmo pr'algum lugar. (?)

Mente desocupada, andarilha temporária
me deixa imprecisa, a questionar.
Dúvida cruel a açoitar.
Sigo nesta estrada? Há porque lutar?

Luto sem a certeza da batalha.
Sem saber onde o meu coração está.
Combatentes solitários, somos todos.
Estrelas cadentes ascendendo em busca de uma aurora.

Derrota, a sensação de seguir a esmo.
A bandeira numa chegada longíqua, a acenar.

quarta-feira, maio 09, 2007

Carta a um Anjo torto, caído, rebelde - parte ll

Já nem parece que o tempo que se foi desde o começo é tão pouco.
Já é lembrança de longe pensar na sua voz, quando a conheci. E como me confortou e me abraçou sem saber. Voz que veio para ser carinho nos meus pensamentos, nos meus sentimentos, nas minhas esperanças.
Eu, sempre muito habituada a escrever para quem se foi (ou nunca esteve), fui pega de surpresa pela vontade de escrever para o amor em tempo real. E além de escrever, ter resposta.
Você, do outro lado, falou de volta comigo. Me recebeu, me reconheceu, me respeitou. Quis saber quem eu era e me ofereceu espaço ilimitado para manter a essência, sabendo que eu não poderia viver fora dos caminhos da minha própria alma.
Como eu, você também partiu do princípio que a perfeição só serve mesmo para as cerimônias de entregas de prêmios. Para quem deseja SER, a perfeição nada significa.
Descobrimos e reafirmamos juntos, minúsculas e imensas verdades universais e particulares, acreditando que as verdades só existem no quintal de cada um. Não sobrevivem a mais de meio metro do seu criador. E você, cheio de verdades inescapáveis e mutantes, trouxe um espelho também para mim, com o meu próprio estilo de inventar o certo e o errado.
A delicadeza das suas intenções e perspectivas me deu espaço para vôo além do que eu, por mim, já possuía.
A impetuosidade dos seus quereres e sonhares, me trouxe alimento para pular do alto de um abismo invertido, sem medo de quebrar.
Pulamos da pedra, cada um no seu salto único e puro. Chamamos um ao outro para dar as mãos no salto, mesmo sem perceber. E igualmente alheios, aceitamos um chamado mútuo que ninguém na superfície deste mundo conhece como pode terminar. Ninguém na superfície deste mundo sabe se pode terminar.
Tanto a agradecer em silêncio. O cuidado de quem cultiva um bem inestimável. A percepção de quem entende que todo bem verdadeiro é poeira de estrela e deve ser reinventado a cada respirar. Não se guarda no banco. Não se poupa para amanhã. Não se registra ao portador. Apenas se vive, se ama, e se deixa acontecer tal como é, ''porque como poderia ser, jamais saberemos''.
E é tão bom admirar o balé alado deste encontro enquanto ele é vivido. Tão bom sentir as suas asas sobre a vigília e o descanso de cada dia que pretendo conquistar.
Portal de amar a vida, o seu olhar.

terça-feira, maio 08, 2007

Alívio Imediato

O que é que há de tanto a dizer, afinal?

Quem lê tanta notícia? Escritos, imagens, desenhos, colagens. Arte e gritos porque a gente precisa falar. E talvez nem use, para isso, as palavras. Sabemos que fomos arremessados aqui neste planeta imenso de tantos idiomas. Suspeito que só possa ter sido para aprender o que dizer. O que precisa ser dito e como conseguí-lo.

Abraçando idiomas que não precisam de fonteiras geográficas para existir. Idiomas que existem dentro da mesma cidade, dentro da mesma família, dentro da mesma pessoa. Códigos que pretendem ser indecifráveis e nós, a cada dia precisando decifrar. Nossos próprios códigos primeiro, quem sabe. Para tentar expressar este tanto de ser que mora dentro e quer tanto ganhar mundo. Imagens incontáveis fotografadas pela percepção. Sensações indescritíveis chupadas por cada poro. Exclamações impronunciáveis disparadas pela pulsação.

Mundos todos e tantos. Visíveis, invisíveis, imagináveis. Energias das quais somos feitos e somos testemunhas. Vibrações parceiras e conflitantes. E sentir, sentir, sentir. Um sem nome de sentires sem identificação.

Talvez a palavra seja um alívio, instrumento para sentir de dentro pra fora, tanto quanto de dentro pra dentro.

Então, damo-nos as mãos momentâneamente em cada sentir que se conecta a mais de um. E suspiramos, realizados por um segundo.

segunda-feira, maio 07, 2007

Da Janela



Logo adiante , o mar
com a noite debruçada sobre as suas ondas mornas
A lua, alta e sorridente
Acenando luz pelos contornos da areia clara.
O som quebrando a água com força, vindo e indo
festa de naturezas se saudando, se observando.
A lua, quando cansada quisesse se esconder
salivaria chuvas dos seus ombros
Expiraria trovões, piscaria relâmpagos
e suspiraria, silenciosa de ansiedade.
Ventania se deitaria, indócil
sobre pedras e caules e pétalas do lugar
Elementos vibrando em dança
ao som da entrega longe do cais.

sábado, maio 05, 2007

Em Festa



''Para que haja uma festa, basta o encontro de duas pessoas que se alegrem por este encontro'' , já disse alguém cujo nome não sei.
E assim se fazem e se comemoram os momentos maiores e melhores. Os mais simples e mais intensos.
Assim se agradece pelo que se vive.
Assim se vive em festa.

quarta-feira, abril 25, 2007

A (Má?) Criação


E Deus criou o homem.
Criou e cuidou de sua criação, para que fosse provida de todos os recursos essenciais. Inteligência, humor, percepção, sensibilidade, adaptabilidade, curiosidade, generosidade, coragem, leveza e tantos outros dons não menos importantes.
Veja que, prover, não significa garantir que a criação fará uso do que recebeu.
Cada criatura pode e deve observar ao longo dos anos, como, quando e porque precisará da mais plena presença de espírito para saber utilizar os dons divinos.
Durante a viagem, milhões de forças contrárias vão fazer de tudo para dificultar a prática que lhe coube. Tudo nas forças contrárias - que me pego a questionar se seriam mesmo contrárias - trabalha para que, uma vez mais, a criatura saia de si mesma, enxergue muito, faça além e vença outra vez. O destino da chuva é ceder pela passagem do sol. Garoa ou tempestade, ceder pela passagem do sol. Fato.
Fato também, que às vezes não dá. Não dá pra parar o correr da água e sentir os raios esquentarem e é claro que por isso a criatura é criatura. Ou seria divindade também, como o seu Criador.
É preciso que se respeite por isto, as excessões. Certo, respeito concedido. Tudo compreendido, benefício da dúvida ofertado. As criaturas todas têm direito também de não querer os dons. Não precisar, não ver, não sentir falta. E que todas façam então, como bem quiserem, pois LIVRES, Deus as criou. Máxima inviolável, inoxidável, impermeável, ''imexível''.
Inteligência (para elaborar), humor (para saber o lugar das coisas), percepção (para se dar conta do invisível), sensibilidade (para captar verdades), adaptabilidade (para dançar a música que toca), curiosidade (para não contentar-se com o que já é), generosidade (para se repartir e lutar junto), coragem (para desbravar o mundo e a si mesmo), leveza (para gravitar sem peso pelos acontecimentos), todos presentes entregues por Aquele que fez o homem existir.
É muito.
Em retribuição, Deus aguarda pacientemente no dorso do seu cavalo alado, pelo momento na vida de todo homem de querer se criar.
Só o homem sabe quando o momento há de chegar.

sábado, abril 21, 2007

Pessoalizações


Tornar pessoal
o que é geral.
Deixar de ser genérico
para ser único.
Ser promovido de alheio
a seu.

Tudo o que toca,
que antes, poderia
passar-lhe solto, sem perceber
E agora, morada faz
nos seus ais e pulsares
na epiderme e olhares.

domingo, abril 15, 2007

Angelus

O melhor do amor é saber que ele pode se fazer notar.

A suprema felicidade de um momento é quando você, numa situação comum qualquer, consegue sentir de um jeito quase palpável o apreço que alguém te dedica. É uma forma de olhar, de querer te ver pra sentir ao vivo se você está bem de verdade, de te ligar porque uma bobagem lembrou você, de modular a voz porque há um tom dedicado especialmente a você, de cantar sorrindo a música que você apresentou, de investir um tanto de tempo matutando para, quem sabe, chegar ao desfecho de um dilema que, em teoria, seria só seu. É querer com toda a força do sentimento que você esteja feliz, que os males não te atinjam, que as alegrias façam morada na sua história.
Aqueles sentimentos lindos todos que afloram no seu aniversário, no Natal ou em uma conquista que, por mais simples que seja ao olhar alheio, é gigante aos olhos de quem te ama e sabe o que aquilo significa para você.
Tem uma lenda que diz que os anjos tiram folga no dia do seu aniversário porque tem vários outros cuidando de você e te cercando das melhores vibrações. E emociona pensar nesta luz tão sincera, tão íntegra e tão acolhedora que chega vinda de outros mundos em forma de gente. Emociona perceber que, se amanhã você deixasse de existir, faria falta para pessoas cuja beleza te comove tanto. Pessoas que amam sem perceber, tão inerente é o amor à sua forma de estar na vida. Pessoas que te amam quando você não está olhando. Pessoas cujo coração aperta em prece para que tudo corra bem nos seus momentos cruciais. Pessoas que gostam de rir com você e embora prefiram jamais te ver chorar, te deitam nos ombros a que distância for para secar suas lágrimas.
O amor, esta aliança de seres que erram tanto e por isso merecem tanto ser amados. Esta força que assume tão variadas formas que nos impossibilita de conhecê-las. A não ser um pouco, talvez, pelos olhos dos amores que amamos.
Nem todo amor é reconhecido, nem todo amor é desejado, nem todo amor é alimentado. Amores também se perdem em abismos de dois segundos. Amores também pecam ao dizer a que vieram e falham e se escondem às vezes.
Ainda, a verdade inescapável do amor é preencher. Seja alguem que ama, seja alguém que é amado. O amor, na onipresença indiscutível do seu existir, dá sentido. Confere o porquê. Junta braços em abraços de laços que não se enxergam, mas em algum momento, se sentem. A ausência de um amor, nenhum outro amor preenche. Mas os outros amores jamais diminuem qualdo algum falta. O amor é independente, é auto-suficiente, é justo. Faz-se mortal ou imortal, conforme queira e precise.
O amor nos vigia silenciosamente e, sem que possa nos guardar do mal, nos carrega no colo e sussurra uma cantiga doce e perfeita até que a dor passe.

O amor existe.

terça-feira, abril 10, 2007

Cansei de ser racional*

Eu quero uma casa no campo onde eu possa compor muitos rocks rurais.

E viver assim, de plantar discos, amigos, livros e nada mais.
Embarcar nas aventuras reais e inteiras, da alma, do espírito
Pro que der e vier , viver da ligação comigo
E em mim, o todo, o tanto, o tudo...todos.
Afinidades de gente que se tem em comum
Mentes expostas, flores abertas de um para um.
Tim-tins por tim-tins me cansam deveras
Às cegas insistindo às vezes
em entendimentos vãos, que só se darão
no desracionalizar.
Escrever âmago e essência
essa que eu nem sei qual é, pois quem sabe é a cabeça
Essa na qual planto ponta-pés.

*Louca de sede por beber nestes outros tanto quanto loucos, membros desta seita sem nome, sem evangelho, sem teorias encontradas porque vive a teoria prática de encontrar-se a si.
- Vinde, irmãos!

"A verdadeira aventura tem que ser naturalmente louca, desmedida, caótica, pulsante, radical. Mas o aventureiro tem que estar sempre consciente. Quando o aventureiro perde a lucidez, deixa de ser um aventureiro, e passa a ser apenas um idiota metido a besta. O louco tem que ser lúcido. Lúcido e inteligente."

quarta-feira, março 28, 2007

Conversa

Se eu pudesse viver a nossa vida novamente,
na próxima cometeria, da mesma forma, todos os erros.
Mas da nossa vida não me ausentaria.
Erraria, na presença, no relacionamento, no encontro. Que o maior erro é não estar e com isso, impedir todos os outros erros de acontecerem.

Olhando de muito perto ou de muito longe a vida é mesmo o que é feito do tempo que a recheia.
Não são grandes conquistas, não são fortunas, não são feitos espetaculares.
São cotidianidades, como estar um na história do outro, como uma conversa no final do dia, como uma gargalhada dividida que ninguém mais entendeu. A mesmice de cada mágica diária que quase sempre reflete o seu encanto quando já é tarde demais para resgatá-la, se não vivida.

A vida é acontecer.

quinta-feira, março 22, 2007

Desvios ou Tempos Idos para Dentro do Agora


Pieces put together
sometimes
Will always be
just pieces.

sábado, março 17, 2007

Co-autoria


(...)
- amor é uma mágica, acho eu
mas, depende do cultivo também
da disponibilidade, principalmente

- sim...
- do olhar para o outro e pelo outro
- adorei esta última frase
- se alimenta desta generosidade
de adimiração, de tanta coisa

- olhar para o outro, pelo outro, através do outro
- sim
mas, comecei dizendo que é uma mágica porque
amar, sem correspondência já é difícil
amar e encontrar correspondência naquele que você ama então, é um milagre
encontrar tudo na mesma pessoa, mesmo ela sendo cheia de defeitos
e ainda por cima, esta pessoa pensar o mesmo de você, que encontrou tudo em você
na mesma intensidade e na mesma frequência,
só pode ser mágica.
É muito dificil mesmo
- sabe que você me deu idéia de como será minha próxima postagem?
vou falar sobre isto
e colocar você como co-autora.


(...)
- quando disse que você está na lista das pessoas favoritas, era verdade
- eu sei.


(diálogos em algum lugar de dezembro.)

quinta-feira, março 15, 2007

As Quatro Estações


Todas as estações têm o seu tempo sob o céu.
Verões e invernos fazem suas vítimas para socorrê-las em outonos e primaveras de cura.
E as estações nem sempre se vão quando passam.
Alguns raios de sol, flocos de neve, folhas secas e botões coloridos ficam até o final.
Por algumas janelas vamos ver sempre, ventos, céus, árvores, pétalas...vidas contínuas.
Verdades coincidentes, exclamações colidentes.
Semelhanças irreconciliáveis carregadas por incompatíveis aversões.
E tudo o que abraça, tudo o que embala, tudo o que faz aprender a viver.
As estações e nós, passando.

terça-feira, março 06, 2007

Teia

Eu vi a vida chegar de repente.

A vida, naquele sentido da linha no tempo à qual você pertence. Cada um na sua própria linha, infinita. A vida, como emissor, receptor, invólucro, veículo, mapa, estação.

Um varal no qual você pendura suas peças aleatoriamente, sucessivamente. Troca as peças que secam pelas recém-lavadas, perde prendedores, colore a corda como quiser, mancha blusas, rasga calças e continua nesta dança, sucessivamente. Desavisadamente. Descuidadamente.

E os varais se cruzam, todos. Pessoas que estão há muito tempo na sua vida - seja a que distância for - e pessoas que estão desde sempre, fazem sem que você saiba ou perceba, muitos desenhos no seu céu.

Vidas que influenciam vidas desatinadamente. Gente que chega pra ficar e gente que vai pra nunca mais. Gente que não sabe se foi. Gente que a gente não sabe se quer que vá, ou pra onde.

Perto é um lugar que não existe, ao contrário do que disse Richard Bach. Porque perto pode ser em qualquer lugar. Pode ser no coração de alguém que você ainda nem conheceu. Pode ser nas pessoas que você soube perto a vida toda sem imaginar que o perto era tão perto que se tornava dentro. O perto pode ser o mais distante também e te enganar. Fazer acreditar que estava ali, sendo miragem sem oásis.

E assim, sucedem-se as peças no varal. Paralelam-se e entrelaçam-se varais. E a vida, de repente. Embrião incubado no seu ser , para nascer a qualquer hora. Pó de universo incensado sobre as cabeças como punhais ou como coroas de flores.

Tempo rei.
Vida, louca vida. Contínua, anciã e de repente.
E você, de poros abertos para a existência.

domingo, março 04, 2007

Presentes - o melhor ser no tempo de um verbo


É simples o amor, parece.
Como respirar, como viver, como querer, como ser...
Os milagres, quando acontecem, deixam a surpreendente sensação de ser simples.
E em "simples" cabe o mundo.
Naturalmente em rotação e translação, cumprindo todas as suas rotas.
O amor é simples, como não é simples viver.
Amar está numa outra esfera diferente de viver.

(...) Eu disse que estava sem ânimo para galinhar, que não gosto muito de galinhar, que sou romântico, dedicado, que gosto de fazer supermercado pensando no que a outra gosta, que gosto de dar presentes, cozinhar, ficar em casa vendo tevê num sábado quente ou chuvoso e jogar gamão, tranca, buraco, xadrez, par ou ímpar, de ver a outra se vestir e escolher com ela as roupas, de ser aquele cara que julga se está bom ou não, se ela deveria estar de cabelo preso ou solto, de botas ou sandálias, de saia ou vestido, de cinto ou sem, com brincos de prata ou de ouro, se dá pra ver a marca da calcinha, que gosta de sentir o mesmo perfume na nuca todos os dias, que gosta de passar xampu no cabelo da mulher que ama, que gosta de passar os dedos na dobra do cotovelo, na barriga, de enfiar o dedo na boca, na orelha, de falar besteira durante o sexo, de beber vinho e transar na sala, de dar sorvete na boca e comer todo o pote de uma só vez, de ficar a noite toda no escuro, sem acender as luzes, ouvindo todas as músicas importantes e marcantes da vida, de alugar três DVDs e não assistir a nenhum, e como é bom lavar a louça a quatro mãos, com aquele detergente neutro e a água quente se misturando com o azeite da salada, de depois passar a espuma do detergente na cara do outro, de nos beijarmos e abraçarmos com a mão toda lambuzada, de ficarmos um no colo do outro numa piscina, de nos deitarmos na varanda em dia de calor, de passarmos protetor solar, hidratante, de um falsificar a assinatura do outro em boletos, de lermos juntos os resumos que saem nos guias dos jornais, de dividirmos uma pipoca, um chocolate, um biscoito Globo doce ou salgado, um coco na praia, uma água com gás, uma aspirina, uma maçã , uma perna de carneiro, um pudim de leite, uma vitamina C, uma rotina, uma cama, uma raiva, um encanto, uma piada, um pôr-do-sol, uma escova de dentes, uma caneta, um livro, uma angústia, uma dúvida, um sonho, um projeto, uma fofoca, um torpedo, um momento, uma vida. (...)

trecho da crônica "Separacão - 3" de Marcelo Rubens Paiva, na edição de 3 de março de 2007 do Estado de São Paulo